24/07/09
Meu rio
O meu rio desagua em ti.
Silêncio e grito.
Infinito
que para ti corre
e que não morre
no meu cantar.
Ahh o silêncio!!!...
Queres que to diga?
Queres que to conte?
Como fazer
se desta fonte
há uma cantiga
sempre a brotar!?...
* * *
Leva
Leva o meu ser!
Leva-o e desvenda-o
abre-o em ti, bem devagar,
e faz do meu grito neblina leve
p'ra que a madrugada
o torne breve ao despertar.
Leva meu rio
faz o teu fado
a tua pausa,
o teu recanto...
E o meu canto
ao ser ouvido
só para ti fará sentido.
Filó (2008)
17/07/09
... Derivações
Habituei-me a ouvir: "É bonito! Arrepia-me... mas não entendo!!"
Sorrio. Se "arrepia" chegou ao destino.
Por outro lado, alguém disse: "Gosto. Já li várias vezes... mas não tens receio de te expor?!"
Voltei a sorrir. Todos nos "expomos" de um modo ou outro. Não há como evitá-lo!
Mas, expor o quê? Expor-me a quem?!
Pensando bem... exponho sim!
Exponho a alma que existe em mim
Raiva e Amor, paixão, desejo...
Exponho a vida tal como a vejo
Ao sol, à sombra, princípio e fim
Palavras soltas sem terem voz
Emoção, loucura e pesadelo
Mas também sei que em paralelo
serei o espelho de alguns de vós
Se a minha mão não tem um freio
e do meu peito agarra o grito
nesta bênção, talvez castigo
Neste condão que comigo veio
não estarei só, eu acredito:
-Nesse "arrepio" tu estás comigo!
Exponho sim! Mas sobretudo perante mim e Ele.
Os outros... os outros vêem o que poderem ver!
Filó (2009)
30/05/09
27/04/09
Resta a Palavra
as horas vazias
a corrente dos dias
o sol na janela...
o actor e a novela
a sombra e o mito
o silêncio e o grito
no tempo seguinte
... narrador e ouvinte
dos monocórdios.
Restam
as frases ao vento
a noite e o relento
o sol e o luar
a brisa e o mar
o reflexo no espelho
as aves do céu
e o conselho
... que se perdeu
ou que se nega.
Resta a entrega.
A rota e a pausa
o efeito e a causa
a confiança no Além...
a promessa que vem
na sagrada aliança
do agora e depois.
Restamos os dois
e a humanidade…
O pulsar da cidade
e a esperança que vem
a este mundo peregrino
a cada momento.
* * *
Resta o pensamento
o destino
...e a Palavra.
Filó (2006)
Poesia & Loucura
Poeta, eu?!
Não!!
Sou apenas a mão que agarra a caneta.
A que ronda, secreta no grito das vozes
do lado obscuro...
as do lado do muro que a mão desperta!
Poeta, eu?!
Não!!
Sou apenas fraqueza, pequenez, cobardia...
A que alimenta a tristeza e sufoca a alegria
A que corrompe a beleza da verdadeira poesia
A que jamais se liberta
... e por mais que escreva
jamais falará aquilo que queria!
Poeta, eu?!
Não!!
Sou um desbravar de palavras
mas as de lá, do lado cinzento
do lado das trevas, do lado escondido
Desse lado desconhecido
talvez perdição, talvez ventura...
Sou apenas um rasgo de amargura
do dia da noite que também se faz dia
Sou farrapo acenando
talvez emoção
talvez grito
talvez abrigo
talvez rebeldia
talvez tortura...
Mas, meu amigo, Poeta, EU?!!!
Não!!
Se para ti sou poesia
para mim sou
apenas loucura!
Filó (2007)
24/03/09
Sabor a mar
Perco-me no olhar. Que haverá de mais belo que esta Natureza?!
Mar em fúria, cavalos à solta
Espuma salgada sobre o meu rosto
Gaivotas planando, ali no seu posto
gozam o azul da massa revolta
Êxtase! Entrega! Plenitude...
Ergo o olhar... beleza tão pura!
Deus em sua graça, ali se revela
Natureza bravia, no entanto tão bela
onde o Universo me abraça e segura!
E... mais uma vez... a saudade!
O sal do meu mar, o sal no meu rosto
E já meu infinito corre a te abraçar
e te leva a emoção que estou a sentir
Sobre os meus lábios, apenas um gosto
não sei se lágrimas, não sei se de mar
Apenas saudade que não sei definir!!...
Filó (2008 )
15/03/09
... a cantilena
"Trago-te no tempo, no sol e nas mãos
Verão e Inverno num quadro só teu..."
... E volta a cantilena
... rotina à solta
que já não retenho
e nem me empenho em retardar.
"Escreve-se devagar
este destino.
Navio à deriva
que peregrino
salta nas vagas
e abre chagas...
e solta o riso... "
... e a de falta o siso...
... ou o siso a mais...!!!
"Há vendavais que sugam almas
há horas calmas em que te vejo
e te desejo, te quero aqui
...mas não te espero
nem sei de ti!"
E desespero!
Cansada!
Entediada!
Frases de nada, frases de vento...
Talvez lamento
talvez desejo
...talvez um beijo!
"Qual o momento que me liberta
Qual o nome que me desperta e adormece?
Destino/sina, que mais parece
um paralelo ao infinito! "
Solta-se o grito!
"Voltarei ... talvez
por entre a chuva
num raio de sol
á tua saudade..."
Uma claridade
entre palavras
num tom discreto
de amargura
" ... e das palavras farei meu leito..."
... e do meu peito renasce a loucura!!
Filó (2009)
12/03/09
Tudo nós
Terra, mar, e a cidade...
Onde a vista alcança é tudo nós.
Percorro caminhos, ruas, vielas
refaço o rumo das caravelas...
Onde a vista alcança é tudo nós.
Liberto a mente, frases ao vento
Olho o horizonte, e mesmo ausente...
Estás presente... e é tudo nós.
Há um lugar onde te vejo
Lugar incerto neste alentejo...
Estás tão perto... e somos nós.
Trago o cheiro das maresias
Na minha vida todos os dias...
mas por inteiro... eu tu e nós.
Viro uma página, outra virá
Por mais um dia, estamos cá...
E no meu olhar ...
...é tudo nós.
Filó (2009)
11/03/09
Neblina
O nevoeiro cobre a cidade.
A mente é abrigo, a mão o abraço e o mar, um rasto de verão distante.
Falarei de mim, falarei de ti ou dos silêncios desta neblina?
Chovem palavras.
No coração da cidade a luz é mais forte:
as feras povoam a periferia.
O sabor das palavras dilui-se em esferas concêntricas.
O eco tornou-se verdade e a verdade escondeu-se algures.
Talvez a cidade acorde...
Talvez a neblina levante...
Talvez o instante esteja para breve
e que breve seja o despertar.
Olho a cidade!
O sol além da neblina.
O coração da cidade bate-me no peito.
Há uma lágrima, um riso, uma flor
Uma mão, um silêncio, uma força fremente
Uma urgência, uma fome... um sonho somente(?!)
um dilúvio arrasando em frases de amor.
Falarei de mim, falarei de ti,
ou dos silêncios desta neblina?
Ai as palavras!!... ...
Ai os silêncios e o vibrar das estações!
Os pequenos tão nadas onde a vida nos foge!
Escreverei um dia frases mais certas?
Saberei um dia o que encerra a saudade?
Irei eu, talvez, um pouco mais longe
dando ás palavras outra liberdade?
... Não sou mais do que ave sobrevoando a cidade
desenhando nos céus sonhos de menina!
Mas talvez...
talvez que poetas nem sejamos nós
e seja esta a voz
desta neblina
Filó (2009)
Dunas
Longe do galopar das matilhas o silêncio envolve-se nas dunas.
Percorro a estrada envolta no vaivém incessante.
À direita e ao fundo, azul contra azul em reflexos de prata;
mais perto, o gentio que se apinha num repouso/cansaço de areias e sol.
Avanço.
Tão só quanto só posso ser neste fervilhar de vida.
Sem temor. Apenas cansaço e um resto de Verão a bailar-me nos olhos.
Verão! Sol e mar!
Abrando.Cheguei ao destino, ficarei por aqui.
...Apelidaram-me um dia de poeta! Não sei.
Já fiz da caneta o meu mundo, mas rasguei o meu mundo em torres de papel....
"Mar... meu mar!!
Meu azul, minha alma, meu conto de fadas!
Meu canto e encanto de um saber que eu não sei!
...Meu refúgio. Meu recanto.
Meu ídolo. Meu Santo.
Meu riso, meu pranto
que esconde em seu manto
tanta dor que chorei..."
Mar...
Sol e mar...
e um resto de Verão a bailar-me nos olhos.
A mente fervilha. O coração é Paz, gratidão.
O grito sai sem aviso:-Espera!
Estende-se a mão:-Serei mesmo poeta?
Olho o azul.
Este azul tão meu e só meu como de toda esta gente.
E depois... de repente... escuto na mente, absorta, sem fala:
"-Tu sentes, poeta, o fulgor que te embala?
A magia das cores e o encanto das marés?
Escutas no canto rolando a teu pés
esta magia da vida que tua alma regala?
Sentes, poeta, a energia que emano?
A mensagem/silêncio que te mostro e ofereço?
E mesmo quando zangado o quanto belo te pareço
ou o que desperto em ti, sem falsidade ou engano?
Sabes, poeta, das emoções que te afagam
nesta plenitude que ao olhar contagia?
Então tu, poeta, tens tal como falam
o sopro de Deus e na alma a poesia."
... ...
Olho o horizonte. Desarmada.
Talvez o seja, talvez não...
Há magia na palavras. Digam o que disserem!...
Regresso a casa. O meu mundo é de silêncios. Longe do galopar das matilhas.
Filó (2008)